Veneno Bipolar

A fênix

19 dias após chegar ao Brasil finalmente eu tenho a sensação de que a vida está começando a voltar aos eixos.

Ainda tenho alterado meu humor com muita rapidez, ontem acordei mais depressiva e logo após o almoço já estava melhor, agendando reuniões e tudo mais. Mas nos dois domingos eu fiquei bem mal, no atrasado eu cheguei a chorar e pedir ao Davi que me lembrasse quem eu sou e descrevesse como é minha vida, nesse eu não chorei, mas acordei muito pra baixo e segui assim até dormir.

Essa semana eu voltei a me sentir bem estando em minha pele. Essa sensação de conforto sendo você mesma é impagável. Me sentir estranha, não me reconhecer ou reconhecer minha vida foi uma das piores experiências que eu já vivi. Eu sabia quem eu era, mas ao mesmo tempo eu estava me sentindo tão diferente do que eu sempre fui, tão apavorada, com tanto medo e vendo tudo de forma tão negra e horrível, que eu comecei a não duvidar se eu era quem eu realmente pensava que era ou se eu era toda aquela coisa horrível e pavorosa que eu estava vivendo. Não conseguia me lembrar de como era quando eu estava bem, trabalhando, namorando, socializando, simplesmente não conseguia. E aí nesses momentos eu pedia ao meu marido que me lembrasse como eu era, como era minha vida, que me descrevesse tudo e me contasse histórias sobre nossa vida juntos. Isso me ajudava a diminuir o pânico e a começar a ter esperança que as coisas voltariam ao normal.

O transtorno do pânico, além de todos os males que causa, como altas descargas de adrenalina e cortisol, estresse físico e mental totalmente degradante e tornar a pessoa refém de um medo irracional e imensurável, ele tira a única coisa que consegue ser o fio da meada para pessoas deprimidas e perdidas dentro de sua própria dor: A ESPERANÇA. Pare e pense por um momento: você já se imaginou vivendo sem esperança? Pense com cuidado. Não estou falando daqueles momentos de extremo negativismo ou tristeza que todos passam, ou mesmo de depressão comum. Estou falando em você passar dias e dias sem conseguir enxergar UMA coisa boa, uma única coisa que seja um oásis no meio do seu deserto de dor e escuridão. A ausência completa de esperança cria um ciclo vicioso no qual o doente fica preso, pois sem esperança não há a expectativa de que aquele momento terrível vai passar e que as coisas vão melhorar. Sentindo isso o desespero aumenta, desencadeando a cascata de reações ao estresse, sendo o gatilho para outra crise de pânico. Ao final da crise, o corpo e a mente cansados, a ausência da esperança deixa o doente jogado em um limbo de completo cansaço, falta de energia e vontade de sumir do mapa.

Já tive algumas crises, várias tiveram mais ou menos a mesma natureza, a mesma gravidade, outras foram mais severas. Em meus 32 anos essa certamente foi a mais grave crise que já vivenciei. E hoje revendo tudo acredito que foi devido a dois fatores: múltiplas crises de pânico que certamente alteraram o meu funcionamento neuronal, e a ausência da esperança, que me deixou presa no ciclo vicioso acima descrito. E vejo que consegui sair dessa crise (ainda estou saindo, ainda estou lutando contra ela) graças a alguns pilares:

FAMÍLIA => o apoio da minha mãe, com quem sempre tive uma relação difícil, foi e está sendo essencial para meu restabelecimento. A sensação de ter com quem contar de verdade, de poder confiar, foi primordial para minha recuperação. Nunca havia vivido isso com minha mãe, então teve um significado ainda maior para mim. Minhas irmãs também estão mais solidárias, uma delas me viu no meu pior estado e desde então elas tem me respeitado e me acolhido mais. Meu marido…. ah, o meu marido! A convicção com que ele repetia que tudo ficaria bem, sem pestanejar por um segundo (eu podia ver nos seus olhos a plena confiança que ele tinha no que dizia), a doçura com que ele cuidou de mim como se eu fosse sua filha, a delicadeza e a caridade dele me tocam profundamente e me deixam apavorada de medo de um dia perdê-lo.

MÉDICO + MEDICAÇÃO: como eu disse, meu antigo psiquiatra, em quem eu confiava completamente, não me deu assistência em um momento de extrema urgência. Fiquei extremamente decepcionada, principalmente porque eu precisava de ajuda naquele momento e porque eu nunca o incomodei fora dos horários das consultas antes. Me senti desamparada, abandonada. Meu marido encontrou uma nova psiquiatra e eu tenho gostado bastante. As consultas são mais longas, ela me pergunta sobre a minha vida, meu passado, quer saber, coisa que o antigo já não fazia há um bom tempo. Está dando certo. Como eu disse, tentei ficar somente com a quetiapina de 25 mg e o Equilid de 50 mg durante a gestação, mas não consegui. Estou no quinto mês e infelizmente foi necessária a introdução de medicamentos depois do episódio nos EUA. Foi e está sendo difícil me recuperar, mas eu já tenho esperança novamente, tudo isso graças ao médico e à medicação.

TERAPIA: Faço terapia desde outubro de 2012 e minha melhora após o início da mesma foi espantosa. Tenho certeza de que a minha recuperação das crises, principalmente dessa, se deve muito ao apoio do meu terapeuta. Tenho total empatia com ele, não abro mão.

ACUPUNTURA: eu reajo muito bem e muito rápido à acupuntura para problemas psiquiátricos. No pós crise fiz duas sessões em uma semana e foi extremamente eficaz, agora voltei para o esquema de uma vez na semana.

Olhando todos esses itens, percebo que tenho uma rede que me sustenta. Sem ela eu não conseguiria sobreviver. Digo isso porque, sinceramente, não acredito que conseguira me manter viva, mesmo que incapacitada para atividades rotineiras, sem tudo isso. Se por um lado é maravilhoso perceber quantos recursos e amor me rodeiam, por outro vivo temerosa em um dia não poder arcar financeiramente com algum deles. Terapia é caro, psiquiatra e remédios também, meu plano já não cobre a acupuntura por isso pago particular. Chego a pensar até a longo prazo, na velhice, como será, pois pago INSS sobre apenas um salário, nosso plano de saúde é da empresa que meu marido trabalha, portanto não temos essa despesa hoje. Enfim…. preocupações demais que me torturam constantemente.

Mas hoje, só por hoje, eu quero me dar o direito de ter paz. De gozar da vida que Deus me deu. Marido amoroso, casa própria, filha na barriga, mãe e irmãs, sobrinho, trabalho digno aparecendo novamente. Quero usufruir dessa sensação de que tudo está sob controle novamente, nem que seja por alguns dias, ou apenas um. Esses momentos me alimentam e muitas vezes me mostram a luz no fim do túnel em meio a uma crise.

A esperança voltou.

Como fênix, mais uma vez ressurjo das cinzas.

 

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Refém do medo

Segunda fui na terapia e descobri vários nós envolvidos no gatilho da minha doença.

Sensação de abandono desde a infância (não foi gerado por meus pais diretamente, mas pelo que eu percebi parece que eu interpretei as surras da minha mãe como abandono, não conseguia confiar nela por isso, não conseguia ver tudo de bom que ela fazia por mim pois só pensava e temia a violência), ida para os EUA no intercâmbio e sensação de viagem fracassada quando eu retornei, a vida difícil que levei nos EUA, o término do meu relacionamento com o brasileiro quando eu morei lá (ele terminou comigo porque não me amava, ele disse isso), a rejeição de uma turma da qual eu queria muito fazer parte na adolescência… foram muitos nós que apareceram nessa sessão.

Estou um dia pior outro melhor, ainda oscilando muito. Estou de repouso (eu me coloquei em repouso pois não consigo fazer nada) tentando me recuperar, remando, mas ainda não consegui vencer a correnteza. Queria escrever aqui sobre cada um dos gatilhos para destrinchá-los dentro de mim e talvez me melhorar, mas ainda não consigo. É um marasmo e ao mesmo tempo uma angústia tão forte que está difícil sobreviver. Porque é isso que estou fazendo, apenas sobreviver.

Ver sentido na vida tem sido muito difícil, por mais que meu ventre cresça com uma nova vidinha aqui. Vidinha que eu quis tanto e pedi tanto a Deus. Gravidez super planejada e desejada, mas sobre a qual sinto extrema estranheza e medo. Medo de não ter forças e nem vontade de cuidar de um bebê que demanda tanto, depois de uma criança cheia de energia, medo de ser má mãe, medo de estragar a vida dela, tristeza profunda por ela ter uma mãe tão ruim como eu. Medo de ter novas crises de pânico, sem dúvida essa foi uma das experiências mais traumatizantes que eu já vivi.

Medo… medo me domina e me paralisa. Me deixa sem ar, sem forças, tenho vertigens. Não consigo conversar ou pensar com clareza. Refém do medo.

 

O retorno

Volto ao blog cheia de notícias tristes…

Desde os problemas do apartamento, nós os resolvemos todos e o colocamos à venda.

Eu engravidei e perdi, foi gestação ectópica e foi extremamente traumático para mim. Não sei explicar o porquê, mas eu senti que estava grávida e diminuí a dosagem dos remédios.

Remédios que eu estava tomando:

Topiramato: 25mg de manhã e 25 mg à noite, sertralina 100mg de manhã e Quetiapina 100mg à noite.

Estava ainda fazendo tratamento para emagrecer. Emagreci 8 kg. Com a desconfiança da gravidez, diminuí a dosagem ao meio até conseguir consulta com o psiquiatra, mas perdi o bebê antes disso. Havia duas opções de abordagem: retirada da trompa, o que diminuiria minhas chances de nova gravidez, e tratamento medicamentoso com metrotexato (quimioterápico) para auxiliar a expulsar o feto. Eu atendia a todos os critérios para o metrotexato, portanto optei por essa conduta para conservar minhas trompas. O tratamento pedia repouso absoluto e eu fiquei muito traumatizada e revoltada por ter perdido o bebê. Sangrei 25 dias seguidos e nesse período eu perdi meu pai, meu melhor amigo, meu amor, minha vida… minha paixão é ele e eu o perdi de repente. Ele começou a passar mal, foi pra minha casa. Eu o levei para o hospital e de lá ele não mais saiu. Faleceu na manhã do dia seguinte, na minha frente. Assisti tudo porque jurei que ele não morreria sozinho, pois ele tinha medo. Isso foi o começo do meu fim… Perdi meu filho, perdi meu pai, minha vida estava fora dos eixos. Para completar me decepcionei profundamente com um casal de amigos que estava muito próximo à mim e ao meu marido. Foram decepções demais para um curto espaço de tempo.

Diante disso decidimos retirar o apartamento de venda, o plano era vender e ficar um tempo na casa dos meus pais até achar outro. Agora sem meu pai, minha mãe ainda não sabia o que fazer (e ainda não sabe), eu não queria colocar esse peso na minha mãe.

Um mês após o período de luto meu marido e eu namoramos uma única vez e nessa vez eu engravidei novamente. Fiquei muito feliz, é claro! Eu queria muito esse bebê, há muito tempo. Mas fui tomada por um pavor horrivel. Medo de esse bebê ser afetado pelo metrotexato, medo de não conseguir criá-la, medo de ela ter problemas por eu ser bipolar, medo! Meu psiquiatra orientou que eu ficasse sem medicação pelo menos nos três primeiros meses e assim fiz. Mantive apenas a quetiapina e acrescentei o Equilid (que é seguro para grávidas). – nesse mesmo período o piso do meu apartamento estourou e eu tive que trocar tudo. Foi um estresse horrível, muito difícil sair de casa de uma hora pra outra e ver pessoas remexendo no seu cantinho.

Remédios que eu tomei nos três primeiros meses de gravidez:

Quetiapina 50mg e Equilid

Completando 14 semanas fui ao psiquiatra novamente pois estava bastante deprimida e muito nervosa, tendo ao menos uma explosão de raiva por semana. Perguntei se poderia voltar para a sertralina, ele achou melhor não e passou o escitalopram. Tomei da 14 à 17 semana e tive 6 crises de pânico (vou contar o gatilho dessas crises em outro post pois esse já está uma miscelânea que só!). Precisei de auxílio médico com urgência (cheguei de viagem com crise de pânico) e meu psiquiatra passa apenas o telefone fixo do consultório dele. Liguei, deixei recado pedindo para ele me retornar com urgência. Ele retornou mas disse que não poderia ir ao consultório naquele dia pois estava com garganta inflamada. Disse para eu voltar para a sertralina, eu argumentei que ela demoraria a fazer efeito e que eu precisava de ajuda imediatamente pois estava com crises sucessivas de pânico. Ele perguntou se alguém da minha família tinha algum ansiolítico que eu pudesse tomar, que não era o mais indicado para a gravidez, mas que em urgência eu poderia tomar 10 gotas de Rivotril ou meio miligrama. Me disse ainda que estaria no consultório na segunda e terça se eu precisasse de retorno. Isso aumentou minha sensação de desamparo e meu marido conseguiu um horário com uma psiquiatra que atendeu o irmão dele quando ele teve pânico. Ela atende celular de madrugada e está mais presente. Conseguiu um horário para mim naquele dia às 17h. Fui, falei, chorei. É uma sensação de que eu não era eu, que eu estava presa em algum lugar horrível e todos estavam do lado de fora dessa prisão tentando me soltar.

A agonia é enorme, medo de tudo, medo de ter medo de ter medo, medo da vida, medo de perder pessoas queridas, medo de ser assaltada, de perder tudo, de perder dinheiro, medo de perder minha filha (é uma menina!), medo de não conseguir cuidar dela, medo de ela ficar abandonada assim como vários filhos de bipolar, inclusive da minha tia. Medo de não amar minha filha, pânico de tudo relacionado a bebê e crianças: brinquedos, banheira, chorinho de criança, voz de criança… tudo me apavora. Arrependimento de ter ido aos EUA (o gatilho das crises repetidas foi a viagem aos EUA que eu fiz com a minha mãe para comprar o enxoval da minha filha. Foi uma viagem pavorosa. Nada aconteceu de concreto, fizemos as compras e tudo mais, mas eu tive crises fortes de pânico todos os dias da viagem e na volta também). Medo do dinheiro que gastei tanto na viagem aos EUA quanto nas compras, medo de estar sem trabalhar porque estou doente e não consigo captar clientes, medo de ser incapaz de cuidar de mim sozinha, de ser incapaz de cuidar da minha filha. Medo de ser um peso na vida do meu marido, da minha mãe, das minhas irmãs. Cada medo alimenta o medo seguinte, vem uma falta de ar incontrolável, sensação de que vou desmaiar.

A pisiquiatra aumentou minha quetiapina para 100mg, introduziu a lamotrigina acho que 50mg e a sertralina. Devo continuar a fazer acompanhamento com essa psiquiatra até o fim da gravidez. Meu marido disse e é verdade: preciso de apoio maior durante a gravidez. Estou frágil, muito instável e essa interrupção da medicação me tirou o chão completamente. Eu tinha tido uma única crise de pânico em maio de 2012, depois disso nunca mais tive e dessa vez ela veio em 6 dias seguidos, com intervalos curtos e está difícil controlar. A sensação é que eu já não sou mais eu, eu não me reconheço mais, nem reconheço meu corpo, não entendo o que está acontecendo comigo. Um dos gatilhos para isso é gastar dinheiro. Na hora que meu marido foi pagar a psiquiatra eu passei muito mal ao ver o valor. Pensar em tudo que gastei nos EUA (gastei dentro do que planejamos mas me arrependi muito), no dinheiro que meu marido gasta com psiquiatras e remédios pra mim… passei mal.

Bom, na sexta apaguei com a quetiapina. No sábado acordei um pouco melhor mas ainda muito fragilizada. A agonia começou a vir e eu liguei para a médica para saber se eu poderia fazer algo. Ela disse para eu tomar 25mg de quetiapina naquele momento e os outros 75mg à noite. Foi o que fiz, acompanhado do restante do esquema de remédios. No domingo acordei um pouco melhor, ainda com ansiedade, mas fui tentando controlar para adiar a tomada do remédio. Queria tentar tomar a quetiapina só à noite ou o mais tarde possível. Levamos nosso cachorro ao médico (ele estava com diarréia e vômito há 4 dias), quando a veterinária foi aplicar a medicação eu passei mal com falta de ar. Voltamos pra casa por volta de 12:30 e meu marido deitou para tirar um cochilo (tomamos café tarde então iríamos almoçar mais tarde). Estava difícil controlar a cabeça, os pensamentos começaram a me invadir, tomei 25mg de quetiapina e acordei um pouco melhor. Agora a noite estou me sentindo melhor mas ainda com muito medo de tudo começar de novo.

Medo de pânico não ter cura, medo de ele voltar, foi uma das experiências mais horríveis que já vivi.

Tristeza não tem fim….

….felicidade sim.

Estava feliz. Iria começar a trabalhar menos, comecei a redecorar o apartamento para quando eu engravidasse só faltasse arrumar o quartinho do bebê. Minha irmã, que é arquiteta, fez os projetos, comprei meu sofá dos sonhos, pequeno mas confortável, comprei minha mesa, comprei minhas cadeiras.
De repente uma infiltração no banheiro da suite, outra no de visitas e outra na varanda. A do banheiro de visitas se torna uma enxofrada de esgoto do apartamento de cima no meu. Procura síndica, segundo o manual da construtora nosso prédio já não está na garantia apesar de só ter 3 anos e meio de vida (por lei a garantia seria de 5 anos). Ela me conta que a estrutura do prédio esta toda podre, os fios cortados, o escoamento de água não existe e para fazê-lo custará uma fortuna e que todos os apartamentos estão com problemas sérios.
Chorei muito. Contei ao meu marido. Não temos condições de sair daqui. Quitamos o ap agora e não temos reserva para outro. Conversamos e para mudar de ap antes que esse se desvalorize mais, o novo financiamento ficaria em R$2.500,00 mensais, sem condição de pagarmos.
Vou ter que trabalhar como se não houvesse amanhã novamente esse ano. E no outro. E no outro.
Filhos? Como? Quando? Mestrado? Quando? Sonhos? Pelo ralo?
Choro, decepção, frustração, desespero, meu e dele.
Oração e fé. Deus, tenha misericórdia e nos mostre o caminho, pois o fardo está pesado demais. O Senhor sabe que além desse grande problema ainda há outros familiares que vieram ao mesmo tempo.

Nos mostre o caminho. Nos de força para percorre-lo. Nos de paz. Não aguento mais.

Sobre a minha vida

A vida

Foto aqui

Contei para vocês que estou de férias em casa devido ao desgaste que o ano de 2013 me causou. Eu estava em frangalhos.

Muito antes disso eu já conversava com meu terapeuta sobre minha vontade de engravidar. (calma, a analogia vai ser longa mas vou conseguir ligar os pontos). Não sei se vocês se lembram mas eu passei por uma fase na qual tinha certeza que nunca teria filhos por diversos motivos: não queria passar meus genes para ninguém, não me via apta para cuidar de alguém, temia ter crises e prejudicar o bebê/ criança/ jovem, temia ser uma mãe parecida com a minha (isso me apavorava!). Então espalhava aos quatro ventos que a vida sem filhos era muito mais bacana. Ser DINC – Duplo Ingresso, Nenhuma Criança (ou em inglês Double Income, No Children) está na moda, ter duas rendas e nenhum filho me permitiria ter liberdade e dinheiro para usufruir de tudo o que eu e meu marido conquistássemos com o nosso trabalho. Quanta infantilidade e medo esses argumentos escondiam.

De repente, bem no meio de um furacão de trabalho, percebo meu instinto maternal me tomar inteira. Eu não enxergava outra coisa que não crianças e parecia que em todos os lugares que eu ia haviam milhares delas, bebês lindos, fofos, gostosos, me lembrando que eu queria um daqueles para mim. Comecei  sonhar com bebês mas não compartilhei isso com ninguém. No meio do ano decidi conversar com meu marido e ele se mostrou pouco animado. Fiquei decepcionada, desabafei com o terapeuta, mas ao investigar a fundo a questão percebi que Davi cultivava dois medos: 1) não se sentia preparado para ser pai; 2) se sentia inseguro diante dos meus desejos, já que eles mudam com rapidez. Ele mesmo me disse ficar machucado pois quando ele começa a se envolver com algum plano que eu teço, eu desisto do planejamento.

Mesmo assim ele disse que poderíamos começar a pensar no assunto. Cheguei a ir no meu psiquiatra para verificar qual seria a medicação adequada para que eu começasse as tentativas. Porém diante dos medos do Davi, do enorme volume de trabalho e também da contratação de uma assessoria de comunicação para acompanhar minha empresa, decidimos adiar o projeto de um filho. Foi extremamente difícil para mim tomar essa decisão mas eu não deixei transparecer nada para Davi pois queria respeitar o momento dele. Quero engravidar quando nós dois estivermos sonhando o mesmo sonho. Pode ser que minha gravidez seja difícil, pode ser que eu precise muito de Davi durante os nove meses e certamente precisarei dele depois, portanto quero que ele esteja seguro com a decisão.

Os dias passavam, eu trabalhava muito mas ao me deitar eu quase sempre sonhava com um bebê. Às vezes ele conversava comigo, outras vezes ele não tinha rosto, uma vez eu o deixei sem alimento durante dois dias. Quando percebi, fiquei completamente atordoada, preparei uma mamadeira para ele e desesperadamente ofereci, o bebê ficou sugando essa mamadeira por horas a fio e ela nunca esvaziava. Nas sessões de terapia volta e meia esse assunto voltava mas meu lado racional repetia que aquele era o momento de investir na carreira. Entretanto eu não estava feliz. Era reconhecida, estava conquistando meu espaço de maneira significativa, muitos me parabenizavam e outros tantos me invejavam, mas meu coração estava triste e eu não sabia porque.

Foi meu terapeuta que me ajudou a ver o que tanto me entristecia. Devagar percebi que abrir mão de uma possível gravidez estava sendo doloroso demais para mim, mas meu lado objetivo não me deixou externalizar isso. Percebi que minha natureza é simples, que eu não preciso de muito para viver e que talvez eu não precisaria vender tanto do meu tempo em busca de sucesso e dinheiro, pois eu estava obtendo as duas coisas mas elas não me satisfaziam. Viajei para Natal e lá minha certeza se confirmou. Em meio àquele povo simples, hospitaleiro e feliz, que vive sem luxos mas com conforto, simplicidade, qualidade de vida e alegria, percebi que era aquilo que eu ansiava, e não uma vida na qual eu vendia 15 a 16 horas do meu dia em troca aplausos, pequenos luxos e consumismo desnecessário. Era aquela a vida que eu queria para mim.

Na semana seguinte à viagem fiquei depressiva pois não me adaptava à minha casa e também fiquei obcecada por encontrar maneiras de viver em Natal. Meu marido ficou muito triste e abatido com essa fase e ela só passou quando eu caí em mim e percebi ser impossível sair do meu ciclo vicioso. Davi tem um excelente emprego, é estável e ganha bem. Seria difícil para mim começar outra empresa do zero. Aceitei novamente minha “antiga” vida e voltei à loucura de sempre. Davi voltou a falar de bebês, disse que sentiu que estava chegando a nossa hora. Nesse momento eu transbordei! Meu sonho estava perto!

Foi aí que chegou a estafa. Eu PRECISAVA ser afastada do trabalho sem discussão, ponto final. Não importava se fulano, ciclano ou beltrano apresentassem necessidades urgentes durante aquele período, eu seria afastada de tudo e de todos. E aqui estou pensando nos meus conflitos profissionais e pessoais já que eles se sobrepõe tornando a situação ainda mais complexa.

Definitivamente eu não quero outro ano como 2013. Veja bem, não é ingratidão. Foi muito bom trabalhar e ganhar dinheiro, mas foi muito desgastante também. Grande parte dos projetos tiveram o custo emocional (desgastes, etc) maior do que o previsto, fazendo com que no fim das contas o valor cobrado não compensasse. Apesar de a contabilidade apresentar lucro em espécie, o prejuízo físico e emocional aos quais fui submetida não têm preço, talvez até teriam mas certamente ninguém estaria disposto a pagar.

Cogitei seriamente interromper tudo. Cumprir os últimos contratos e encontrar algo para fazer. Fazer um mestrado, dar aulas. Eu ministrei um curso de dois dias para profissionais da minha área e foi um sucesso, acredito que me daria bem na área acadêmica, sempre tive facilidade com os estudos. Assim eu teria uma vida mais tranquila, poderia criar meu filho, educá-lo e me preservar. Poderia parar de trabalhar nos fins de semana noite a dentro até amanhecer. Comecei a pesquisar mestrados, entrei em contato com uma professora e vou dar andamento a esse projeto.

Entretanto um medo paira sobre mim. E se eu me arrepender? Já caminhei tanto… e a caminhada foi tão dura e especialmente difícil pois além das dificuldades que qualquer empreendedor enfrenta, eu ainda precisa dominar minha mente. E se eu me arrepender? Dificilmente haverá como voltar atrás. Largar tudo agora que meu nome é tão conhecido? Isso seria fraquejar? O que os outros iriam pensar? Ao obter sucesso profissional eu conquistei o respeito de vários familiares, tanto meus quanto do meu marido, se eu desistir de tudo há grandes chances de eles voltarem a pensar: é uma coitada mesmo, eu sabia que duraria pouco. Eu construí minhas próprias algemas e agora não sei se quero tirá-las.

A verdade é que ultimamente tenho percebido um grande amadurecimento moral e espiritual de minha parte e isso só me fez desejar uma vida mais simples, mais calma. Uma vida na qual eu possa educar meu filho, lavar a louça, estender as roupas lavadas, levar o cachorro para passear, realizar atividades corriqueiras, enfim, criar um ambiente onde cresça um ser humano que seja bom para a sociedade. E no fundo do meu coração eu sinto que o caminho para isso passa muito longe de eu trabalhar 16 horas por dia e meu filho ser cuidado pela TV, IPad e demais gadgets caríssimos que meu dinheiro compraria na tentativa de suprir minha ausência. Meu coração me diz que o caminho é abrir mão de boa parte do meu tempo para dedicá-lo a essa pessoinha que pretendo gerar, ela poderá não estudar nas melhores escolas, ter os melhores brinquedos ou as mais caras viagens, mas terá amor, carinho e educação diferenciada o tempo todo. 

Neste exato momento estou sofrendo pois se aproxima o fim das minhas férias e ainda não encontrei a resposta para esse conflito. Por enquanto a ideia é ir empurrando com a barriga, cumprindo contratos mas aceitando menos projetos, mas com a perspectiva de engravidar eu não gostaria de continuar trabalhando como trabalhei durante esse ano.

Parece perfeito e relendo o parágrafo anterior minha decisão está claramente tomada. Mas então por que é tão difícil tomá-la realmente? Por que me importo tanto com o julgamento da sociedade diante de uma atitude tão diferente? Por que é tão difícil nadar contra a corrente, mesmo quando é para se respeitar?

Happy new year!

Imagem Foto aqui

Feliz ano novo, queridos leitores!

Que 2014 seja o ano da estabilização para muitos, da caminhada para uma vida plena, cheia de realizações e felicidade, é isso que desejo para vocês!

Minha última postagem no blog foi em abril de 2013, eu estava vivendo uma briga deveras séria com meu marido. Permitam-me retornar àquele ponto apenas para fechar a questão. Depois darei uma pincelada sobre 2013, ok? Antes disso quero agradecer os comentários deixados por aqui e os emails recebidos. Peço desculpas por não tê-los retornado antes, 2013 foi um ano de muito trabalho, mal conseguia respirar. Sempre que eu escrevia aqui no blog ficava triste pela falta de interação, portanto meus caros leitores, se vocês ainda permanecem por aí, por gentileza deem sinal de vida, combinado?

Voltando ao buraco negro: aquela foi uma das brigas mais doídas da minha vida. Chegamos a cogitar separação. Avaliamos a venda do apartamento para dividirmos o valor, eu ficaria com o carro e ele com a moto. Estava tudo acertado. Separação, tentativa de suicídio, crises de paranoia, sonhos torturantes, tudo causado por uma pessoa. Isso para mim é extremamente sério, cruel e desumano, sofri isso tudo por causa do “irmão” e Davi não concordava, não via ou não queria ver. Mas Deus é mais forte. E diante de todo o rancor, de todas as palavras que dissemos um ao outro que abriram feridas tão profundas e aparentemente não cicatrizáveis, dia a dia nosso relacionamento foi se restabelecendo. Primeiro no silêncio, na ignorância mútua. Era como se o outro não estivesse ali, mas ele estava e a situação era deveras desconfortável. Eu estava trabalhando demais, 15, 16 horas por dia, saía do computador apenas para tomar banho e dormir, isso ajudou a atravessar essa fase. Pouco a pouco fomos nos reaproximando e quando eu me senti segura novamente em relação ao nosso sentimento voltei a conversar sobre o quanto a atitude dele foi insensata e desrespeitosa e sobre como o irmão dele tinha poder sobre nossa relação. Disse ainda que não mais aceitaria isso e ele concordou. Ficou tudo bem, pelo menos até a próxima crise do “irmão caçula” de 29 aninhos.

A vida seguiu, eu estabilizei. Continuei tomando Torval, mas passei de 300 para 500 mg definitivamente, a dosagem do Luvox também subiu de 50 para 100 mg e a de quetiapina de 25 para 50 mg, ou seja, todos os medicamentos praticamente dobraram a dosagem (obrigada, “irmão caçula” de merda). Evitei o quanto pude o “irmão caçula”, mas infelizmente vez ou outra ele acabava aparecendo em minha casa. Então eu fazia de tudo para agradá-lo, tentando assim deixar meu marido feliz, mas nada adiantava, em algum momento da visita o execrável aprontava alguma. Na minha casa, debaixo do meu teto ele me desrespeitava.

A terapia me fez um bem que medicação nenhuma jamais fez.. Em dois meses já se via a diferença, em 6 então… Eu já não era aquela que escreveu no penúltimo post “que sem ele não sei quem sou”. Minha empresa cresceu MUITO, eu já era reconhecida no mercado mas em 2013 o reconhecimento veio como uma avalanche e como eu estava corretamente medicada e fazendo terapia, eu consegui lidar com tudo isso da melhor maneira imaginável, como se não tivesse nenhum transtorno mental, ou melhor, usando o lado brilhante da bipolaridade que tanto falam e que até então eu poucas vezes havia experimentado.

O sucesso de minha empresa e do meu site fortaleceu minha auto estima. Eu, alguém desacreditada desde o berço, alguém que sempre foi a mais inteligente mas a mais chorona, feia, gorda, antissocial, esquisita, sem amigos, rejeitada, isolada, eu me tornei destaque na minha área de atuação. Não há em minha cidade e até fora dela quem não conheça meu nome ou do meu blog quando está em busca do serviço que eu presto. Foi difícil aceitar que isso era verdade. Precisei de várias sessões de terapia para entender que eu não era uma impostora, mas sim uma pessoa competente trilhando uma carreira de sucesso. Esse assunto ainda volta a ser discutido às vezes em algumas sessões. Eu sempre tenho a sensação de que meu sucesso não se deve à minha competência, mas sim à sorte ou à alguém ter me ajudado, ou a qualquer fator externo. É como se a qualquer momento alguém fosse descobrir que eu sou uma impostora e que todo o meu sucesso se deve apenas a esses fatores e não ao meu trabalho. Mas na verdade não é assim. Meu terapeuta e meu marido me ajudam sempre a rever cada passo da minha carreira e do meu planejamento futuro para me mostrar o quanto sou competente e o quanto sei criar estratégias e gerenciar negócios e pessoas. Eles estão sempre me mostrando minhas qualidades, não através de elogios vazios, mas através de exemplos de coisas que eu mesma fiz. Isso me fortaleceu e me deu autonomia e segurança para ser eu mesma, para ser autêntica, para começar a viver!

Continuei tendo ciclagens rápidas periodicamente, principalmente quando acontecia algo que me abalava emocionalmente e ainda é assim. Mas nada que me tirasse a estabilidade. Um ou dois dias de repouso, em silêncio, lendo ou fazendo o que gosto eram suficientes para me restabelecer. Entretanto eu me pressionei demais no que se refere a trabalho. Percebendo a minha boa fase eu trabalhei como se não houvesse amanhã. Não tive recesso em dezembro de 2012 e janeiro de 2013 e tive 50% a mais de projetos a executar que no ano anterior, isso sem contar as visitas à parceiros, fornecedores, atendimento a futuros clientes e a clientes com projeto em andamento. Eu fui uma máquina e todos me aplaudiam. Laura está sempre à disposição! Laura, modelo de profissional! Laura isso, Laura aquilo! Meus clientes me ligavam de madrugada, nos feriados e fins de semana (meu trabalho exige um certo apoio psicológico aos clientes), não havia limites e aquilo começou a me incomodar muito. Somado a isso comecei um MBA na área de negócios no segundo semestre e me apaixonei novamente pelos estudos, estava em êxtase. Em outubro Davi e eu decidimos tirar férias, viajamos para a praia mas eu caí na asneira de levar o celular e, é claro, trabalhei remotamente. Descanso zero.

Resultado? Cheguei ao fim do ano completamente esgotada. Estava com muita raiva do meu trabalho (pelo qual sou ou era apaixonada), só de pensar nele me dava vontade de chorar. Estava decidida a largar tudo e me tornar mãe e dona de casa. Pensei em engravidar em 2014 e estudar para um mestrado, dar aulas e cuidar do meu filho (a). Meu trabalho era deveras estafante, com alto nível de pressão e cobrança, pouca ou nenhuma tolerância a erros e a remuneração não é compatível com tanto desgaste e estresse. Após conversar com meu marido decidi me dar recesso do Natal até dia 15 de janeiro. Desliguei o computador, o telefone, tudo, hoje é o primeiro dia que retorno e foi só para escrever para vocês. Estou em casa, curtindo preguiça e pensando no que vou fazer no futuro. Não aguento outro ano como esse. Trabalhei em média 15 horas por dia, incluindo muitos sábados e domingos. Não vi minha família, perdi contato com meus amigos que não compreendem o porquê do sumiço apesar de me verem sempre na mídia, me esgotei física e emocionalmente e só ganhei dor de cabeça e estresse. Preciso pensar em alternativas pois não quero ficar sem ganhos, mas meu organismo não aguenta tanta pressão e estresse.

Engordei ainda mais. Procurei meu psiquiatra e nós trocamos a medicação, inclusive a medicação nova já é compatível com gravidez, caso eu decida encomendar um baby. A mudança foi sugerida para tratar a compulsão alimentar. Tenho histórico genético para compulsão. Meu pai e outros membros da família são alcoólatras, alguns desenvolveram compulsão por drogas e vários, como eu, por comida. Eu engordei 17 quilos em 3 anos e o que mais me preocupou foi meu comportamento diante da comida. Eu comia como se não pudesse parar, tarde da noite me dava vontade de comer doces e se não havia em casa eu ficava igual a uma barata tonta andando de um lado para o outro, desesperada penando em como conseguir um doce, até que eu não aguentava e saía em busca de alguma lojinha 24h para comprar. Meu ápice foi quando não havia doce em casa de madrugada e eu desesperadamente bebi um vidro de calda de sorvete. Depois, passando mal com a quantidade de açúcar ingerida, sentei na cama e chorei muito.

Ao contar isso meu psiquiatra sugeriu as seguintes medicações: topiramato 25 mg de 12 em 12 horas, sertralina 100 mg no horário do almoço, junto de uma refeição e manteve a quetiapina de 100 mg a noite. A adaptação foi difícil como sempre é. Ainda estou passando por ela, comecei a medicação em 14/11, o efeito começa após um mês e meio e o efeito pleno só após três meses. Me senti mais deprimida mas sem conseguir chorar. Sabe quando você está muito triste, sente que precisa chorar para aliviar toda aquela dor mas o choro não sai de jeito nenhum? Detesto remédios que causam isso! A compulsão melhorou um pouco, mas não foi aquela Brastemp toda. Eu procurei um endocrinologista e comecei uma dieta no dia 27/12, isso mesmo, antes do reveillon! Estou firme e forte, vou contando o resultado para vocês. Sinto saudade da combinação Torval + Luvox + Quetiapina. Ela foi a responsável pela minha estabilização e foi com ela que eu me dei melhor até hoje. Porém, percebi uma coisa boa nesse novo coquetel: eu tenho menos sono, só sinto sono quando tomo a quetiapina a noite. Com a combinação antiga eu sentia sono muito cedo e como não conseguia dormir muito porque tinha que trabalhar, ficava sonolenta o dia todo. Nos dias que não trabalhava eu dormia 12 horas direto sempre. Se deitasse 21h só acordava 09h, se deitasse 21h acordava só as 08h, era um reloginho de 12 horas de sono. Como estou mais alerta consigo produzir mais e isso é muito bom. Vamos ver como as coisas caminham, não é mesmo?

Quanto ao meu futuro, durante esse descanso resolvi dar uma passadinha no meu email profissional e percebi que ainda amo meu trabalho, eu estava apenas muito cansada. Que sirva de lição: meu corpo precisa de pausas, decidi que esse ano não vou trabalhar de manhã, vou aceitar menos projetos, vou fazer alguma atividade física e estudar para o mestrado. Decidi também que vou tirar 10 dias por semestre para fazer NADA!

E vocês, me contem o que andam fazendo? Estou curiosa!

Desajeitado amor

Há pessoas que sabem amar e amam muito, incondicionalmente, mesmo que o ser amado seja meio desajeitado na arte do amor.

Juntando os cacos

juntando_cacosFoto: aqui

Os dois últimos dias foram de solidão e profunda dor.

Tentei conversar com ele diversas vezes e a grande maioria delas obtive silêncio. Outras ouvi um: eu errei, me desculpe, o que mais posso fazer? Aquilo me feria mais ainda! Despejei toda a minha raiva, decepção, rancor e mágoa em cima dele e esperava uma reação mais preocupada, mais apaixonada de sua parte. Não aconteceu.

Agoniada, o procurava dentro de casa para continuar a conversar na vã tentativa de resolver o problema. Para mim era impossível permanecer na mesma casa que ele com as coisas do jeito que estavam, mas ele parecia inerte, impassível diante de tudo, repetindo apenas o me desculpe, o que está feito está feito, não há como voltar. Como se ele não se importasse com as consequências da sua mentira e da sua falta de atitude. Como se todo o meu sofrimento não o atingisse. Aquilo me levou a loucura.

Na quarta-feira passei em seu trabalho e ordenei que descesse para conversarmos. A agonia era grande demais, eu já não cabia em mim. O ódio e a raiva eram enormes, não só pela traição e pela mentira, mas  pela reação quase inexistente da parte dele. Foi então que brigamos de verdade. Brigamos feio. Ele entrou no carro, o guiou até nosso prédio e às 13 horas, diante do porteiro e de vizinhos que saiam para o trabalho, ele berrou a plenos pulmões comigo e eu com ele. Trocamos ofensas, palavras planejadas para abrir o maior número de feridas possível.

No calor da discussão, pela primeira vez, ele gritou que não aguentava mais. Eu ameacei diversas vezes sair de casa, mas ele não ameaçava, fazia. E pegou uma mala. Ele jogava roupas e sapatos dentro dela e eu olhava sem saber o que fazer. A raiva era grande demais para pedi-lo para ficar, mas o desespero e o medo de ficar sozinha foi tomando conta de mim. Quando ele estava na porta do elevador eu tomei a mala de suas mãos e, mesmo sentindo uma enorme repulsa por ele, eu, em prantos, pedi que ele ficasse. Ele gritava: você quer que eu fique por que? Fala! Pra me fazer ficar você vai ter que falar! E eu sussurrei: fica porque eu te amo.

Apesar de não ser o que eu sentia naquele momento eu falei. Falei porque eu sabia que se ele saísse ele não iria voltar, e mesmo que voltasse, a saída deixaria marcas profundas demais em nós dois e o sofrimento já estava deveras grandioso para termos mais uma ferida para curar. Mas, acima de tudo, falei porque naquele momento constatei, não sem sentir uma profunda dor e decepção para comigo, que sem ele não sei quem sou.

Conheci meu marido exatamente uma semana após o meu diagnóstico. Devastada diante do estigma da bipolaridade e da loucura, minha auto estima quase nula me fez vestir a carapuça da doença com violência. Foi ele que com paciência e muito amor me mostrou que eu era muito mais do que um diagnóstico psiquiátrico ou alguém sem valor, como tantas vezes me foi dito durante toda minha vida. Ele acreditou em mim quando eu nada tinha para oferecer, se não choro compulsivo, crises depressivas e muita tristeza. Ele repetia incessantemente: você é luz, você é paz, você é filha de Deus e merece ser feliz, você é linda, estarei sempre com você independente do que aconteça.

Continuei a errar muito desde que nos conhecemos, mas ele me ensinou a ser uma pessoa melhor a cada dia. E olhando pra trás vejo o quanto sou diferente hoje e o quanto todas as mudanças foram baseadas no amor incondicional dele por mim. Ele ensina sem julgar, ele corrige sem punir, ele ama sem pedir nada em troca. Ele é a maior prova de que Deus me ama muito e que me quer bem. Sem ele eu definitivamente não seria quem sou hoje. E sem ele tenho sérias dúvidas se conseguiria continuar a sê-lo. Como deixar embora o responsável pela minha sensatez? Não posso, não consigo.

Então me percebi refém de um sentimento e de uma pessoa. Não há descrédito algum em ser refém do amor, entretanto o desenvolvimento da individualidade e da independência é uma necessidade pungente. Perceber isso fez com que eu me sentisse frágil e exposta. Afinal, ele poderia fazer o que quisesse comigo e eu teria que aceitar, já que não posso viver sem ele. Me vi em uma situação delicada e extremamente desagradável, pois não estava disposta a ignorar o que havia acontecido.

Minha mente começou a funcionar em alta velocidade. Ela distorcia e piorava todas as coisas que li nos emails e eu me torturava com aquilo. Visualizava Davi questionando seu amor por mim, dando razão ao irmão, concordando com ele. Isso me levou às portas da loucura novamente. Eu queria ler todos os emails de Davi, fiscalizar o celular, ouvir as conversas telefônicas dele, ler as mensagens de texto, persegui-lo de todas as formas possíveis.  Pensei diversas vezes em me matar. Pra que viver se a única pessoa com quem eu podia realmente contar não me amava, se era tudo uma grande mentira? Eu estava novamente na beira do precipício e quase disposta a pular. Lutando contra todos os meus instintos para tomar atitudes extremadas, me segurei, tomei minha medicação e me deitei. Para aplacar a ansiedade eu li muito, li e chorei.

Acordei como um zumbi. Cumpri minhas obrigações do dia em modo automático. Me produzi, me maquiei e fui a mais simpática das mulheres em uma reunião com cliente. Davi e eu trocamo alguns emails doloridos durante o dia. Com ansiedade aguardei o horário da terapia, na esperança de que lá eu conseguiria organizar minha mente um pouco melhor. E, graças ao nosso misericordioso Deus, funcionou. Meu terapeuta, com uma postura extremamente profissional e ao mesmo tempo delicada, pontuava minhas declarações em momentos oportunos, deixando perguntas ou frases para que eu refletisse e tirasse minhas próprias conclusões.

Consegui organizar as ideias e planejar uma conversa que gerasse resultado. Cheguei em casa um pouco aliviada e faminta, nos últimos dias minhas refeições se resumiram a 1 shake diet e 3 pacotinhos de biscoito salgado. Convidei Davi para sairmos, jantamos mas não conversamos. Foi uma forma de quebrar o gelo, apesar do seu semblante sisudo. Consegui voltar a sorrir e brincar com o nosso cachorro. Chegando em casa ele foi para o computador jogar e eu fui ler.

Adormeci rápido e tive um sonho tão real que me apavorou: sonhei que Davi havia me deixado e estava namorando com uma amiga dele (ela existe na vida real e eles são amigos desde o colégio). Eu liguei para o celular dele e ele não atendeu porque sabia que era eu. Liguei para a mulher e ela também não me atendeu. Pedi para o irmão dele (sim, aquele que eu não gosto) o telefone do restaurante em que eles estavam  e ele não me deu, mas eu acabei encontrando. Consegui falar com Davi e disse que ele precisava voltar comigo, que eu o amava e que sem ele preferia morrer (já me preparando para o suicídio com uma faca), ao que ele respondeu: meu tempo com você terminou. Passei por tudo que precisava passar com você, me comprometi a ajudá-la a evoluir e ajudei, agora vou ser feliz com quem eu realmente amo. Assim ele desligou e eu, atordoada com a dor, acordei desesperada. Olhei o relógio: 05:01 am.

Tentei voltar a dormir mas meu coração estava taquicárdico, o desespero era real. Ouvi barulho de teclado e me levantei para ver o que era. Sim, Davi estava jogando até aquela hora. A minha decepção ao vê-lo jogando somou-se ao desespero causado pelo pesadelo, sentei no sofá e chorei alto por mais de uma hora. Davi se limitou a desligar o micro e ir para a cama, sem ao menos me perguntar o que houve, me consolar, me abraçar, ou sequer conversar.

Vai ser difícil juntar os cacos

Buraco negro

Buraco-Negro1

E quando a gente acha que está tudo bem, o teto desaba sobre nossas cabeças.

Fui traída pela pessoa na qual mais confiava, e o pior, não foi a primeira vez.

Veja bem, não falo de traição com outra mulher, a traição clássica que abala qualquer casamento. Falo de traição que envolve mentira, conluio com terceiros sem que eu soubesse, e envolvendo questões relacionadas à nossa família, que somos ele e eu. Explico.

Já falei um pouco por aqui sobre como a família do Davi já dificultou nossas vidas. Ele era arrimo de família quando o conheci, mas quando descobri que isso se dava não por necessidade, mas por total descontrole financeiro da mãe e folga do irmão, comecei a conhecer um pouco mais sobre o caráter dos dois. O irmão passou na universidade federal mas precisava frequentar a escola de direito mais cara da cidade porque era a melhor. Ele  não podia trabalhar, afinal estava estudando (mesmo que a grande maioria dos jovens trabalhe durante a faculdade, ele não podia, tadinho!), mas viajava com a namorada com o carro e às custas de Davi. A mãe fazia compras e mais compras desenfreadas e depois, cheia de dívidas, ia pedir que Davi arcasse com a despesa da casa, e assim foi indo enquanto Davi era solteiro.

Começamos a namorar e o carro e o dinheiro já não estavam tão disponíveis como antes, ainda mais quando marcamos o casamento. Isso foi o suficiente para que o irmão e a mãe infernizassem nossas vidas, mas de modo tão sutil, com alfinetadas e outras artimanhas, que eu não conseguia mostrar para Davi o quanto eles estavam nos fazendo sofrer. Cheguei a terminar o noivado com Davi 4 meses antes do nosso casamento porque, sinceramente, não me via vivendo uma vida cheia de sofrimento com esse tipo de convivência. Eu sairia de um problema para cair em outro. Ele me jurou que seria diferente, que imporia limites, etc, etc.

Veja bem, cheguei a esse extremo após aguentar todo tipo de ofensa e restrição, após ser difamada pela namoradinha do irmão dele, que espalhou para Deus e o mundo que eu era bipolar com requinte de detalhes sórdidos e inventados (eu caí na asneira de confiar nela em um dia de desabafos…). Assim, a família paterna de Davi (da qual tanto o irmão dele quanto a namoradinha são mais próximos) também começou a me hostilizar. Entretanto, Davi sempre negou a existência dessas animosidades, o que além de me irritar, culminou no nosso término de noivado após a mãe dele me insultar abertamente na frente dos familiares. Davi correu atrás de mim por uma semana, jurando que seria diferente, etc, etc. E eu acreditei. BURRA, IDIOTA, IMBECIL, BABACA.

Desde que nos casamos os problemas com a família dele aparecem periodicamente. Soma-se isso ao problema que o Davi tem com jogos de computador, ele joga compulsivamente. E online, com o irmão do outro lado da tela.  Irmão esse que jura que estuda para concurso público (fala isso desde que eu conheci o Davi, há 5 anos atrás), mas vira as noites jogando essas merdas todas e, em muitos momentos, o Davi está online jogando com ele. De tempos em tempos brigamos ou porque o irmão dele falou mal de mim e o Davi não me defendeu, ou porque o irmão dele pediu dinheiro, ou porque o Davi não faz outra coisa ao chegar em casa que não jogar. Chego a pensar em sair de casa, choro, grito, xingo, mas acabo deixando passar, acreditando que dessa vez seria diferente. Combinávamos de que tudo seria conversado e decidido em conjunto, que nós dois sempre decidiríamos o que fazer e que ele me defenderia diante dos familiares dele.

Davi ainda atribuiu algumas dessas brigas às minhas crises. Sim, admito que quando estou em crise brigo muito com ele, isso é fato. Entretanto me dói sobremaneira quando ele atribui minhas reclamações exclusivamente à minha doença. Poxa, ele não vê o caráter (ou a falta dele) que o irmão tem? Ele não percebe o quanto fui humilhada e machucada por diversas atitudes tomadas pela família dele, com as quais ele foi, no mínimo, conivente? E o pior, mesmo que a situação se repita milhares de vezes, ele tem a mesma (falta de) atitude? Poxa vida!!! Sou a esposa dele, caramba! É obrigação dele me defender diante de sua família!!!! Isso é o mínimo que um marido faz por sua esposa! Além disso, ele ainda não vê que o vício em jogos está atrapalhando a vida pessoal e profissional dele. Já falei, já repeti, ele simplesmente não me escuta! Parece que minha palavra não tem valor para ele, sabe?

Bom, chegando ao episódio de ontem: estamos tirando visto para os EUA e precisávamos enviar documentos para a empresa que está nos auxiliando. Entrei no computador dele para poder enviar esses documentos e acabei fuçando no email pessoal dele. Foi aí que descobri 3 coisas que me devastaram. 1) Ele passou boa parte de alguns dias de trabalho conversando no gtalk com esse irmão dele sobre jogos de computador. Poxa!!!! Em pleno horário de trabalho???? Fiquei puta porque pouco antes de ele tirar férias, ele fez um drama danado falando que estava cheio de trabalho acumulado e teria que trabalhar nas férias. É claro né, fica batendo papo com o irmão sobre joguinho dá nisso. Sinceramente, isso é coisa de moleque, e não de um adulto de 35 anos!!!!!!!

2) O irmão dele fez várias insinuações contra o nosso casamento, dizendo que todos precisamos evoluir mas que ele não precisava passar pelo que ele passava comigo (oi? Davi deve ter contado alguma coisa pra ele!!! Meu Deus, que ódio!!!!!), que ele era uma pessoa boa e merecia ser feliz e não ficar passando por provações comigo, que eu sou uma pessoa complicada demais. Que eu fico “Cantando de galo” com o Davi e proibindo ele de jogar e que ele não deveria deixar ninguém fazer isso com ele não porque ele merecia ser feliz. (como se felicidade fosse jogar jogos online dia e noite!). Ele pediu que o Davi fosse fiador para ele comprar um carro (falo fossemos porque nossos bens são em conjunto então tudo o que vai pro nome do Davi reflete em mim também), conversamos e eu expliquei para Davi que preferia que não fossemos porque caso algo desse errado isso marcaria nossa relação com o irmão dele para sempre e eu não queria isso. Peguei emails que eles trocaram com o irmão dele falando que não queria ficar devendo favor pra mim, que tinha pedido  ao Davi e não para mim e que nunca queria ficar devendo favor para mim. Além de vagabundo, folgado, o bonitão ainda é orgulhoso, é mole????

3) Mesmo com o irmão querido trabalhando, ganhando bem o suficiente inclusive para comprar um carro (comprou um Focus, porque, é claro que ele, bonitão, não poderia comprar um carro popular 1.0 de forma alguma!!!), Davi estava transferindo R$150,00 por mês para o bonitão!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! PUTA QUE PARIU! Me perdoem pelos palavrões, mas nesses momentos o blog tem função catártica para mim. Ah, que merda, gente!!! Eu aqui me descabelando de trabalhar, economizando, ralando igual imbecil. Trabalhando fora e dentro de casa (sempre faço as coisas em casa porque fico com dó do Davi) e ele dando dinheiro pra vagabundo?????????? Vagabundo sim, porque nesses emails eu li que o bonitão, além de folgado e abusador da boa vontade alheira, é fumador de maconha, gente! Aí que não vai pra frente mesmo! O que esse menino tem na cabeça??? Uma ervilha, só pode!

A questão não é o valor em si, são duas coisas: uma pessoa que ganha o que o irmão dele diz ganhar não deveria precisar de dinheiro alheio, ele só faz isso porque gasta seu salário em wisky, maconha, etc e hora nenhuma passa pela cabeça dele usar o salário para bancar o próprio sustento! Os outros que o banquem, o dinheiro dele é para o seu bel prazer! Acreditam que até os planos de casamento dele incluem morar na casa dos outros com a própria esposa??? Pra esse menino não existe pagar aluguel ou financiamento de apartamento, pagar água, luz, telefone, comida, imposto. Pra quê? Se tem trouxas pra pagar pra ele???? Incrível! A segunda coisa é: o dinheiro não é do Davi, é NOSSO! Da nossa família, que por enquanto, é composta apenas de nós dois, mas que poderá crescer. Ele passou por cima de mim, me desrespeitou profundamente.

Na hora me lembrei de tudo que tenho feito pelo meu marido. Ultimamente repetimos várias vezes um para o outro: estamos vivendo uma fase ótima né? Começamos a pensar em ter um filho. Comecei a ser mais presente financeiramente na casa. Inclusive, quando comecei a terapia, perguntei se ele pagaria para mim, pois fiquei com medo de não conseguir arcar com uma despesa fixa. Ele, surpreendentemente, respondeu que estava apertado. Mas para dar dinheiro para vagabundo ele tem!!!!

Ele veio me pegar para almoçar e eu perguntei se ele tinha alguma coisa para me contar. Ele disse que não. Perguntei mais duas vezes, ele respondeu que não. Aí eu vomitei tudo nele. Falso, mentiroso, filho da puta. Até quando ele pensou que ia me enganar? Ele respondeu: eu não iria te contar! Ah, vai pra puta que pariu viu? A relação que ele tem com esse irmão é doentia, meu Deus do céu!!! Vale tudo para satisfazer esse vagabundo, tudo. Toda a dor que ele me causa vale a pena para deixar esse vagabundo feliz e isso me machuca ainda mais, pois a prioridade para Davi é o irmão e não eu.

Davi diz que eu sou prioridade número um na vida dele, mas o que adianta dizer e não agir de acordo? Não nego em momento algum o valor do apoio dado pelo meu marido durante minhas crises, nas minhas questões profissionais, nos meus problemas com minha família. Entretanto, toda vez que o irmão dele atravessa nosso caminho ele destrói tudo o que há pela frente e deixa rastros de dor. Não é a primeira nem a segunda vez que isso acontece e Davi e eu já conversamos milhões de vezes e combinamos o que deveríamos fazer em casos assim. Mas adiantou alguma coisa? NÃO.´Aliás, adiantou sim: para eu fazer papel de PALHAÇA, pois o irmãozinho querido dele sabia que Davi estava fazendo tudo isso sem o meu conhecimento, pelas minhas costas, ou seja, meus desejos e opiniões não tem valor algum mesmo dentro do meu próprio lar, já que Davi faz o que bem entende na hora que quer, do jeito que é melhor para ele e para o vagabundo.

Briguei, xinguei, perguntei por que, meu Deus, por que? Eu sou uma má esposa? Está faltando algo para ele? Logo agora que eu estou estável, temos uma convivência tranquila… o que falta pra ele para que ele faça essas coisas comigo, meu Pai? E com relação ao trabalho, ele é um homem de 35 anos e não um moleque inconsequente para ficar batendo papo sobre jogo no horário de trabalho! Que merda isso, que merda! E ainda me vem com histórias de que é injustiçado no serviço, de que não é promovido por injustiça… a tá, viu? Será que não é porque ele está mais preocupado com “outros afazeres” mais urgentes, como discutir a última versão do jogo do momento ou o desenvolvimento psicológico do seu personagem???? Ah, faça me o favor, viu? Casei com um moleque!!!!! Um moleque que, além de não se respeitar, não me respeita também! E não respeita os votos feitos no nosso casamento. Quanta falsidade, meu Deus, quanta deslealdade, quanta mentira.

Aí eu fico me perguntando: o que mais é mentira? Ou o que seria verdade? Estou perdida e, mais uma vez, sozinha.

(e não, eu não estou em crise)

To this day – We´ve made it!

Inspirador, emocionante, profundo, tocante…

Esse poema me emocionou por diversos motivos, o mais forte deles foi poder gritar: CONSEGUI!

Apesar da violência, do preconceito, da crueldade, dos problemas mentais, EU CONSEGUI. Eu venci. Eu dei a volta por cima. Eu tenho valor.

Assista aqui ao vídeo que representa muito da minha vida, e provavelmente da sua também.

Se tiver dificuldades com inglês, assista ao vídeo abaixo, legendado.

Tradução livre do poema

Quando eu era criança eu achava que cortes de bisteca e golpes de Karatê significavam a mesma coisa. Eu pensava que ambas eram bistecas. (nota da blogueira: essa frase só faz sentido em inglês devido a sonoridade parecida entre as duas expressões).
E porque minha avó achava isso fofo e porque as bistecas eram as minhas favoritas, ela não me corrigiu, afinal isso não era lá um grande problema.
Um dia, quando eu percebi que crianças gordinhas não foram feitas para subir em árvores, eu caí de uma e machuquei o lado direito do meu corpo
Eu não quis contar para minha avó porque tive medo de me encrencar por estar brincando aonde não devia
Alguns dias depois, o professor de educação física notou meu machucado e eu fui mandado para a sala da diretora
De lá fui enviado para outra salinha com uma tia bem boazinha que fez todo tipo de pergunta sobre minha vida em casa
Não vi razão para mentir. Até onde eu sabia a vida era boa. Eu disse a ela “sempre que estou triste minha avó me dá golpes de karate.”
Isso levou a uma investigação completa e eu fui removido de casa por três dias
Até que finalmente eles decidiram me perguntar como eu me machuquei
Essa historinha boba se espalhou pela escola e eu ganhei meu primeiro apelido: bistequinha
Desde esse dia eu odeio bisteca.

Não sou a única criança que cresceu assim, rodeada por pessoas que diziam aquela rima: “pau e pedra só osso quebra”
Como se ossos quebrados doessem mais do que ser xingado
E éramos xingados de tudo
Então crescemos acreditando que ninguém se apaixonaria por nós
Que seríamos para sempre solitários. Que nunca encontraríamos alguém que nos faria sentir como se o Sol tambem nascesse para nós
Como se as cordas do coração partido sangrassem as tristezas quando tentássemos nos esvaziar para não sentir nada
Não me diga que isso dói menos do que um osso quebrado
Que uma vida encravada é algo que um cirurgião resolva e que não vai haver metástase
Vai.

Ela tinha oito anos
Era nosso primeiro dia no terceiro ano quando ela foi chamada de feia
Ambos fomos movidos para o fundo da sala para não sermos bombardeados por bolinhas de cuspe
Mas os corredores da escola eram um campo de batalha
Aonde éramos a esmagadora minoria todo miserável dia
Não saíamos para o recreio porque lá fora era pior
Lá fora teríamos que ensaiar a fuga ou aprender a ser estátuas como se não estivéssemos lá
E no quinto ano colaram em sua carteira um aviso que dizia: “cuidado com o cão.”
Até hoje, apesar de um marido amoroso ela não se acha bonita.
Por causa de uma marca de nascença que ocupa pouco menos da metade de seu rosto
Diziam que ela parecia uma resposta errada que tentaram apagar e não conseguiram fazer direito.
E eles nunca entenderão que ela está criando dois filhos cuja definição de beleza começa com a palavra mãe
Porque eles vêem seu coração antes de ver sua pele
E ela nunca foi nada além de incrível!

Ele
Era um galho quebrado enxertado em outra árvore genealógica
Adotado
Não porque seus pais optaram por um destino diferente
Aos três anos ele já era um coquetel composto de uma parte de abandono e duas partes de tragédia
Começou a terapia no oitavo ano
Tinha uma personalidade formada por testes e comprimidos
Vivia como se as subidas fossem montanhas e as descidas fossem penhascos
Quatro quintos suicída, uma maré de anti-depressivos e uma adolescência chamada de paranóia
Uma parte por causa das pílulas e noventa e nove partes pela crueldade.
Tentou se matar no segundo colegial quando um garoto, que ainda podia ir para casa encontrar com seus pais, teve a audácia de lhe dizer: supere isso!
Como se a depressão pudesse ser remediado por qualquer item que esteja dentro de uma caixa de primeiros socorros.
Desde esse dia ele é uma dinamite acesa dos dois lados
Poderia descrever em detalhes como o céu acaba momentos antes dele cair
E apesar de um exército de amigos chamando-o de inspiração, ele continuará a ser apenas um assunto entre pessoas que não compreendem
Às vezes ficar sem medicação tem menos a ver com vício e mais a ver com sanidade!

Não fomos os únicos a crescer desse jeito
Até hoje crianças são chamadas por xingos
Os clássicos eram “e aí idiota, ei bestão”
Parece que cada escola tem um arsenal de apelidos atualizados a cada ano
E se uma criança se magoa em uma escola e ninguém por perto escolhe ouví-la
Ela faz algum barulho?
Ou são só ruídos de fundo em uma trilha sonora repetitiva onde as pessoas dizem coisas como, como crianças podem ser cruéis?
Toda escola foi uma grande tenda de circo
De acrobatas a domadores, de palhaços a empregados, todos milhas de distância daquilo que éramos
Éramos aberrações

Meninos com mãos de lagosta e mulheres barbadas
squizitices fazendo malabarismos com depressão e solidão
Jogando paciência e girando garrafas
Tentando beijar nossas feridas para curá-las
Mas à noite, enquanto outros dormiam, continuávamos a andar na corda bamba
Era um treino e, sim, alguns de nós caíram.

Mas quero lhes dizer que tudo isso são somente escombros
Sombras de quando finalmente decidimos detonar todas as coisas que achávamos que costumávamos ser.
E se você não consegue ver algo de bonito ao seu respeito
Arranje um espelho melhor
Olhe mais de perto
Encare por mais tempo
Porque há algo dentor de você que o fez continuar tentando apesar de todos que o mandaram desistir.
Você construiu um castelo em volta de seu coração partido e escreveu dentro dele:
“Eles estavam errados!”

Porque mesmo que você não pertença a um grupo ou turma
Pode ser que decidiram te deixar por último ao formarem o time de basquete ou coisa assim
Pode ser que você tenha machucados ou dentes quebrados para mostrar mas nunca o fez
Pois como você pode manter-se de pé quando todos ao seu redor querem te enterrar?
Você tem que acreditar que eles estavam errados!
Eles têm de estar errados
Por que mais estaríamos aqui?

Crescemos aprendendo a torcer pelo apersonagem zarado porque nos identificamos com ele
Brotamos de uma raiz plantade de uma crença de que não somos aquilo que nos chamam
Que não somos carros abandonados, empacados e vazios numa rodovia.
E mesmo que de alguma forma sejamos, não se preocupe
Só saímos para buscar combustível
Somos graduandos da turma de “CONSEGUIMOS”
Não ecos distantes de vozes gritando apelidos que não vão me ferir
Certamente eles feriram.
Mas nossas vidas sempre serão uma eterna busca pelo equilíbrioQue tem menos a ver com dor
E mais a ver com beleza

Você também pode visitar o site do autor clicando aqui e acessar o canal dele no youtube clicando aqui.

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